Friday, October 15, 2004

Foto 1

Naquela altura, vivia "paredes meias" com essa coisa do medo.
Mas...era como se fosse proibido assumir esse tipo de sentimentos.
Era algo que só os fracos podiam sentir e reprimia-se e recalcava-se assim, sem direito a expansão, os pensamentos, as imagens, os receios...obrigavam-nos a "engolir" os tais monstros (até simpáticos) de antigamente, sem lhes conhecermos o rosto.

O fotógrafo da minha terra era o homem que eu mais temia.

Por diversas vezes me enfeitaram de laços e laçarotes, de caracóis e sorrisos ensaiados...na tentativa (sempre infrutífera) que o sujeito me conseguisse sacar um simples retrato.
Mas os meus pontapés e gritos estridentes faziam desistir o mais persistente.
E mais uma vez saía vitoriosa.
Mas magoada...porque ainda ninguém tinha entendido que o que o homem queria...era mesmo roubar-me a cara...a cara toda para a enfiar naquele bocado de papel.

3 comments:

jcb said...
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Conde-Lírios said...

vendo o que não desvendo, vendo o que não tenho... e vendo bem, vende aí que o passado é o negócio do futuro...

Dill_O_Ente said...

O fotógrafo….fotófrago….
Esse demente da tecnologia que apenas pretende uma cópia de nós.
Com uma agravante, pode duplicar, tripilcar e espalhar pelo mundo a nossa imagem, sem nós sabermos.
Também tenho medo deles. Fotografam a embalagem de um produto que não se sabe se pode ser consumido.
Estará na validade?… pergunta o produto….
Nunca saberei, nem o fotógrafo sabe o que anda a espalhar.
Talvez imagens a duas dimensões, de universos a múltiplas coordenadas.
Antes fotografias do que radiografias. Essas são íntimas, mesmo que não mostrem o nosso interior.

(home_nagem a uma In Amiga :))